Por que a geração Z é a mais deprimida?
- observatorioudfon
- 7 de dez. de 2023
- 9 min de leitura
Redação por João Augusto Pires

Foto por Daniela Borsuk
Não é novidade que a geração nascida de 1990 a 2010, mais conhecida como
geração Z, é considerada a mais deprimida atualmente. Mas por que ela é a mais deprimida
dos últimos tempos? Qual foi a causa disso tudo isso? Em uma entrevista com a psicóloga
Alessandra Araújo Vieira e a socióloga Alessandra Montes obtivemos algumas respostas.
A Socióloga diz que existem algumas questões importantes quando se avalia a
geração Z. A principal é o advento da disseminação das redes sociais que impactam as
relações humanas. Alguns estudos na área da psicologia apontam para um aumento da
ansiedade social e até mesmo com o impacto da pandemia. O ser humano é ser social,
segundo Aristóteles, sua natureza é viver em sociedade e na convivência humana buscar
sua felicidade. No entanto, quando nos deparamos com outros autores como Byung-Chul
Han, na Sociedade do Cansaço, pode-se perceber que atualmente vivemos uma era de
velocidade rápida e cansaço excessivo, dificultando conexões reais entre as pessoas. E
isso ocorre justamente vinculado com o uso de tecnologia na informação, o excesso de
informações muitas vezes tendem a gerar a ansiedade. O fator comparativo também entra
como uma questão para a geração Z, já que todos exibem suas vidas perfeitas diariamente
em redes sociais, fica difícil se sentir parte de um grupo social ou tribo, ou mesmo se sentir
suficiente
Já a psicóloga confirma que sim, é verdade que estudos indicaram um aumento nas
taxas de depressão e outros problemas de saúde mental entre jovens da geração Z em
comparação com gerações anteriores. No entanto, é importante observar que várias causas
podem contribuir para essa tendência, tendências essas que são.
Pressão Social: A geração Z cresceu em um ambiente altamente conectado digitalmente, o que pode criar pressões sociais, como a necessidade de se destacar nas redes sociais, o que pode levar à comparação constante com os outros.
Pressão Acadêmica: Muitos jovens enfrentam pressões acadêmicas intensas, com expectativas elevadas em relação ao desempenho escolar e à competição para entrar em universidades.
Mudanças na Família: Mudanças na estrutura familiar, como taxas mais altas de divórcio e famílias monoparentais, também podem impactar a saúde mental dos jovens.
Desafios Econômicos: Questões econômicas, como a dificuldade em encontrar emprego ou lidar com dívidas estudantis, podem causar estresse financeiro.
Isolamento Social: Embora a tecnologia tenha conectado as pessoas de maneira global, também pode levar ao isolamento social e à falta de interações face a face significativas.
Preocupações com o Futuro: Preocupações sobre o futuro, incluindo questões ambientais, econômicas e políticas, também podem contribuir para o estresse e a ansiedade entre os jovens.
Não se deve culpar a geração Z por esses problemas e nem mesmo as gerações
anteriores a ela, afirma a psicóloga. A mesma ainda diz que, em vez disso, é importante
reconhecer que a saúde mental é afetada por uma série de fatores individuais e sociais
complexos. Além disso, é fundamental promover a conscientização sobre a saúde mental,
oferecer apoio apropriado e investir em estratégias de prevenção e tratamento para todos,
independentemente da idade ou geração. Não é apropriado atribuir culpa às gerações
anteriores pelas taxas de depressão e problemas de saúde mental que as gerações mais
jovens enfrentam. As questões de saúde mental são complexas e multifacetadas, e muitos
fatores contribuem para esses desafios, incluindo fatores sociais, econômicos, culturais e
individuais.
As gerações mais antigas podem ter vivido em um contexto social diferente, com
desafios e pressões próprias, e também podem ter enfrentado questões de saúde mental.
Além disso, muitos avanços na compreensão e tratamento de problemas de saúde mental
ocorreram ao longo do tempo.
Em vez de atribuir culpa a gerações anteriores, é mais construtivo abordar questões
de saúde mental como um problema compartilhado que requer compreensão, apoio e
colaboração intergeracional. A promoção da conscientização sobre saúde mental, a
educação e o acesso a recursos adequados são maneiras mais produtivas de abordar
esses desafios de maneira eficaz e compassiva. É importante lembrar que enfrentar
problemas de saúde mental é uma responsabilidade coletiva que todos têm um papel a
desempenhar na busca por soluções e no apoio às pessoas que sofrem. É uma
responsabilidade coletiva abordar esses problemas e oferecer recursos para promover o
bem-estar emocional de todos.
A Socióloga Alessandra Montes ainda acrescenta que é muito comentado que
gerações anteriores eram pautadas em autoritarismo e preconceitos. O advento dos
movimentos sociais e seus impactos na democracia contemporânea ainda são questões
muito recentes. Muitos pais e avós ainda não compreendem que certos termos “sempre
falados” são hoje vistos como preconceituosos, por exemplo. Mas, cada geração educa a
seguinte com as ferramentas do seu tempo e de acordo com suas vivências de valores. Não
dá para culpar uma geração.
Pelo fato da geração Z ser atualmente a nossa geração de jovens adultos no
mercado de trabalho, é questionado como isso afeta o mercado e a própria humanidade.
Alessandra Araújo afirma que o aumento nas taxas de depressão e problemas de saúde
mental, especialmente entre jovens da geração Z, pode ter consequências significativas
para a sociedade toda. Alguns dos impactos diretos incluem.
Impacto na Qualidade de Vida: Indivíduos que sofrem de depressão e outros distúrbios de saúde mental frequentemente experimentam uma diminuição significativa na qualidade de vida, o que pode afetar sua capacidade de funcionar e desfrutar da vida.
Impacto Econômico: A depressão e outros distúrbios de saúde mental podem resultar em absentismo no trabalho, diminuição da produtividade e aumento dos custos de saúde, afetando a economia.
Custo em Saúde Pública: A crescente demanda por serviços de saúde mental pode sobrecarregar sistemas de saúde pública, aumentando os custos e dificultando o acesso a tratamentos adequados.
Impacto nas Relações Sociais: A depressão e outros problemas de saúde mental podem afetar negativamente as relações familiares e sociais, levando ao isolamento e à ruptura de relacionamentos.
Aumento das Taxas de Suicídio: A depressão é um fator de risco importante para o suicídio. O aumento nas taxas de depressão pode estar relacionado a um aumento nas taxas de suicídio, o que é uma preocupação de saúde pública grave.
Alessandra Montes comenta as consequências que as redes sociais, uma das
“culpadas”, acrescentam na vida do ser humano. Cyberbullying e a ansiedade podem ser
consequências diretas do uso excessivo de redes sociais sem filtrar conteúdos que façam
sentido, até mesmo questões mais agravantes em relação à saúde mental. Não há uma
única solução. Trata-se de adaptar esses adolescentes e jovens a encarar de forma
equilibrada a realidade social e virtual. Cuidar sempre para conseguirem socializar nos dois
“mundos”.
A psicóloga ainda acrescenta que para resolver esses problemas, é necessário
adotar uma abordagem multifacetada que envolva:
● Conscientização e Educação: Promover a conscientização sobre saúde mental desde cedo, na educação formal e em casa, para reduzir o estigma associado a problemas de saúde mental.
● Acesso a Tratamento: Garantir que haja acesso adequado a serviços de saúde mental, incluindo terapia e medicação, para aqueles que precisam de ajuda.
● Prevenção: Implementar programas de prevenção que promovam o bem-estar emocional e ensinem habilidades de enfrentamento saudáveis.
● Apoio Social: Criar redes de apoio sociais fortes, incluindo família, amigos e comunidades, que possam ajudar a combater o isolamento e fornecer apoio emocional.
● Redução de Pressões Sociais: Abordar pressões sociais, acadêmicas e econômicas que contribuem para o estresse e a ansiedade.
● Pesquisa e Inovação: Investir em pesquisa para entender melhor as causas e tratamentos para distúrbios de saúde mental e promover a inovação em tratamentos e intervenções.
● Liderança Política: Políticas governamentais que priorizem a saúde mental, alocação de recursos e acesso a cuidados adequados são fundamentais. Focando mais no mercado de trabalho, a especialista em psicologia nos traz mais tópicos.
● Absentismo e Diminuição da Produtividade: Pessoas que enfrentam problemas de saúde mental podem ter taxas mais altas de absentismo no trabalho e diminuição da produtividade. Isso pode afetar negativamente as empresas e a economia todo.
● Custo para Empresas: Empresas podem enfrentar custos adicionais devido a planos de saúde que cobrem tratamentos de saúde mental, programas de licença médica e custos associados à substituição de funcionários ausentes.
● Desafios de Retenção: A retenção de talentos pode ser um desafio, pois os funcionários que lutam com problemas de saúde mental podem estar mais inclinados a deixar seus empregos.
● Impacto na Cultura Empresarial: A cultura de uma empresa desempenha um papel crucial na saúde mental dos funcionários. Empresas que não oferecem apoio adequado à saúde mental podem enfrentar desafios na atração e retenção de talentos.
● Investimento em Bem-Estar: Muitas empresas estão reconhecendo a importância de investir em programas de bem-estar e saúde mental para funcionários como uma estratégia para melhorar o ambiente de trabalho e a produtividade.
● Mudanças na Natureza do Trabalho: A pandemia de COVID-19 acelerou tendências de trabalho remoto e flexibilidade. Isso pode afetar positivamente a saúde mental de algumas pessoas, mas também pode criar desafios de isolamento social para outros.
● Conscientização e Aceitação: A crescente conscientização sobre saúde mental está promovendo discussões abertas sobre o tema. Isso pode levar a um ambiente de trabalho mais compreensivo e solidário para os funcionários que enfrentam desafios de saúde mental.
É importante que as empresas estejam cientes desses desafios e tomem medidas
para promover a saúde mental no local de trabalho, fornecendo recursos, apoio e educação
para os funcionários. Isso não apenas beneficia os trabalhadores individualmente, mas
também pode melhorar o desempenho geral da empresa e a satisfação dos funcionários.
Cuidar da saúde mental no local de trabalho é fundamental para o bem-estar dos
funcionários e para o sucesso sustentável das empresas. E ainda no mercado de trabalho a
socióloga foca mais nas tecnologias dizendo que existe uma grande modificação no
mercado de trabalho. A era tão tecnológica, com uso de Inteligência Artificial e flexibilização
de direitos trabalhistas, traz um emprego totalmente diferente da segunda revolução
industrial, do fordismo, em que os pais e avós estiveram. Anteriormente, um trabalhador
bem-sucedido passava décadas da sua vida dedicado à mesma empresa. Hoje isso parece
uma estagnação. A velocidade também entra nesse processo, de pouca estabilidade, muita
inovação, acesso gigantesco ao conhecimento. Bauman, em Vida líquida, mostra que a era
atual se relaciona a tudo ser passageiro e breve.
Após toda essa explicação de o que ocorreu para a geração Z ser tão deprimida e
que consequências isso causa, foi questionado a Alessandra Araújo, o que uma pessoa
deve fazer quando está passando por esse tipo de situação. A psicóloga nos traz os
seguintes tópicos.
● Busque ajuda profissional: O primeiro passo fundamental é procurar ajuda de um profissional de saúde mental, como um psicólogo ou psiquiatra. Eles podem avaliar sua situação, fazer um diagnóstico adequado e oferecer orientação e tratamento apropriados.
● Converse com Alguém de Confiança: Falar sobre seus sentimentos com amigos, familiares ou colegas de trabalho em quem você confia pode ser reconfortante e proporcionar apoio emocional.
● Estabeleça metas realistas: Defina metas pequenas e alcançáveis para si. Isso pode ajudar a criar um senso de realização e progresso.
● Mantenha um Estilo de Vida Saudável: Priorize o sono adequado, alimentação equilibrada e exercícios físicos regulares. Esses fatores têm um impacto significativo na saúde mental.
● Pratique a Auto Compaixão: Seja gentil consigo mesmo e evite a autocrítica severa. Trate-se com a mesma compaixão que você ofereceria a um amigo que estivesse passando por um momento difícil.
● Mantenha Conexões Sociais: A solidão pode piorar a depressão. Faça um esforço para manter contato com amigos e familiares, mesmo quando não estiver se sentindo bem.
● Estimule o Interesse por Atividades: Engajar-se em atividades que você costumava desfrutar pode ajudar a elevar seu ânimo. Se não tiver interesse em antigas atividades, tente novas experiências.
● Pratique a Mindfulness e a Meditação: Essas técnicas podem ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade, melhorando a conscientização do momento presente.
● Evite o Isolamento: A tendência de se isolar é comum na depressão. Procure interações sociais, mesmo que em pequenas doses, para evitar o isolamento.
● Siga o Plano de Tratamento: Se um profissional de saúde mental prescreveu medicação ou terapia, siga o plano de tratamento conforme orientado.
Porém, a especialista deixa claro que cada pessoa é única, e o que funciona para
uma pessoa pode não ser eficaz para outra. Portanto, é importante personalizar as
estratégias de acordo com suas próprias necessidades e consultar um profissional de saúde
mental para orientação específica. A jornada para a felicidade pode ser desafiadora, mas
com o apoio adequado e ações positivas, é possível encontrar um caminho para o
bem-estar emocional.
Já Alessandra Montes diz que além de procurar ajuda profissional, ela recomenda
que saibamos filtrar os conteúdos que encontramos nas redes sociais. Mas que viva a vida
para além do tecnológico e do celular, não elimine os aplicativos, mas que conheça pessoas
e crie laços no mundo real.
Porém, a preocupação que fica é, “e a próxima geração ela pode passar pela
mesma situação ou até mesmo pior?” A psicologia afirma que a previsão do que as futuras
gerações enfrentarão em termos de saúde mental é uma questão complexa e incerta. A
saúde mental é influenciada por uma ampla gama de fatores, incluindo sociais, culturais,
econômicos e individuais, e esses fatores podem variar ao longo do tempo.
É importante reconhecer que cada geração enfrenta seus próprios desafios e
contextos únicos. As gerações futuras podem enfrentar questões diferentes daquelas
enfrentadas pelas gerações anteriores, devido a mudanças na sociedade, tecnologia,
economia e cultura.
No entanto, também é importante aprender com as experiências das gerações
anteriores e buscar maneiras de melhorar o suporte à saúde mental e a resiliência desde
cedo na vida das pessoas. Isso pode envolver a promoção de educação sobre saúde
mental, a redução do estigma associado aos problemas de saúde mental, o acesso a
tratamento eficaz e o desenvolvimento de habilidades de enfrentamento saudáveis.
Em última análise, a previsão do futuro da saúde mental das gerações futuras
depende de uma série de fatores complexos e interconectados. A criação de uma
sociedade que valoriza a saúde mental, oferece apoio e recursos adequados e promove a
compreensão e a aceitação é essencial para ajudar as futuras gerações a enfrentar os
desafios que possam surgir.
Já a socióloga novamente aborda sobre o tema de tecnologias dizendo que tudo
depende da forma como essa geração tende a lidar com acesso à tecnologia, no entanto,
uma questão que vale destacar como preocupante é a dificuldade de se relacionar e criar
laços sem utilizar telas.
Portanto, a razão pela qual a geração Z sofre tanto de depressão e ansiedade se
deve ao contexto que ela se vive, e que o uso indevido de tecnologias, principalmente das
redes sociais, tiveram grande impacto para que isso ocorresse. E isso afeta o mundo ao seu
redor e que o único jeito de que essa situação não se repita com a próxima geração é dar
mais atenção à saúde mental do ser humano e aprender com a forma que lidamos com isso
no passado e como podemos aprimorá-las no futuro, e também devemos dar mais valor e
tempo para se criar laços fora das telas.




Comentários