top of page

Existem tipos variados de relacionamentos e conexões para com as ruas, o que difere uma experiência da outra são as abordagens feitas. Arte, auxílio e venda de produtos, são exemplos de como uma cidade é viva e atua em diversas frentes, mas todas elas possuem trocas únicas com o centro de uma cidade, as ruas. Um grafiteiro, uma enfermeira e uma vendedora falam um pouco sobre como as ruas se conectam e fazem com que criem um apreço pelas mesmas, mostrando a importância das ruas como parte do cotidiano.

 

O aumento da presença de pessoas em situação de rua torna-se cada vez mais evidente nas ruas das cidades. Esse fenômeno, presente em diversos estados e no Distrito Federal, expõe a vulnerabilidade de diversos grupos.

 

O cuidado por parte da sociedade
 

Adrielle Cristina Silva Souza, é enfermeira e trabalha diretamente com pessoas em situações vulneráveis: “trabalhei por anos no serviço que é da atenção primária, que é o “Consultório na rua” [...] Hoje meu contato ainda é quase diário [...] a gente fica no CAPS álcool e drogas onde atende boa população que está em situação de rua”.

 

A moradora de Goiânia, de 33 anos, também dá aulas na Universidade Federal de Goiás e ensina seus alunos na teoria e na prática. “Hoje a formação acadêmica em saúde, ela tá primando assistência em saúde mental na comunidade tanto para álcool e drogas, sofrimentos psíquicos, transtornos mentais”.

 

Atualmente os profissionais que trabalham nas ruas ressaltam que é necessário inclusão, não basta ter dados na área da saúde mas, ter também mais benefícios e direitos. Para ter contato e trabalhar bem com pessoas em situação de rua é preciso compreender que cada um tem as próprias necessidades e singularidades. 

 

 

 

A empatia não se limita apenas à compreensão intelectual, mas também se manifesta em ações concretas. Grande parcela da sociedade se distancia e ignora a realidade desses indivíduos, muitas vezes levando-os à invisibilidade social, assim dificultando a criação de um perfil identificador para que essas pessoas possam receber qualquer ajuda necessária: 

 

 

 

 

 

 

 

 

O desenvolvimento da empatia desempenha um papel crucial quando se trata de lidar com pessoas em situação de rua: “A gente tenta estimular a pensar em como a gente pode contribuir para melhor desenvolvimento, cuidado do outro em situação de rua, considerando tantas fragilidades, vulnerabilidades que ele tem”. Ao invés de julgamentos precipitados, a empatia motiva a buscar soluções para problemas que levam à situação de rua, reabilitação social e também o lazer dos que se encontram nessas condições, promovendo uma sociedade mais inclusiva e justa.

 

Um dos meios de promover reabilitação e lazer, é através da arte, assim como Adrielle, Rodolfo Madureira, conhecido como Caburé, apoia a reintegração dessas pessoas. O grafiteiro de 30 anos acredita que a arte pode mudar completamente tanto os ambientes quanto as pessoas. “Acho que se fizesse coisas assim, com mensagens positivas e tal, com certeza ajudaria”.


A arte como motivação

 

Caburé conheceu o grafite ainda na infância, enquanto andava pelas ruas da Samambaia via os grafiteiros fazendo seus murais, com esse papel de espectador criou um certo apreço pelo grafite e somente depois de uma exposição do grafiteiro Ozi que seu caminho pelo mundo da arte foi trilhado. Inspirado pelo Ozi, começou usando a técnica stencil (criação de moldes usados como guias na aplicação da tinta em superfícies) e atualmente utiliza o freehand, com uma criação mais ‘livre’ porém continua com o mesmo estilo artístico de antes.

 

 

 

 

 

 

 

 

Créditos da foto: Arquivo pessoal do entrevistado

 

Considera o grafite uma arte para todos, influenciando e até mesmo motivando, principalmente na periferia. Apesar de toda a evolução feita em como o grafite é visto, ainda há quem considere vandalismo e com todos os movimentos feitos em volta do mundo, essa arte antes considerada “coisa de vagabundo”, agora vira realmente objetos de artistas. De acordo com Caburé, a arte de grafitar pode sim mudar vidas, tendo “Um propósito para estar vivendo” além de revitalizar lugares abandonados para trazer movimentações, é algo feito pela e para a comunidade. 

 

O grafite tem um papel importante no mundo e nas ruas, segundo Caburé por “unir as tribos”, ao ter esse poder de união de pólos, das massas. É também uma forma de se expressar; conseguir entrar no seu próprio mundo e expor o seu subconsciente, fazendo com que o público, além de apreciar, se identifique com a obra de arte urbana. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Créditos da foto: Ana Clara Pereira de Lima Oliveira

A falta de estímulo por parte do governo faz com que o artista se sinta desmotivado a levar seus trabalhos para as ruas “[...] É uma coisa que até me dá raiva porque a maioria dos grafites que você vê pela rua foram feitas por conta própria do artista. Acontece muito de eu estar lá pintando e chegar alguém perguntando se foi o governo que me pagou pra estar ali. Sendo que eu gastei muito. Eu gastei meu próprio dinheiro pra comprar o spray que não é barato.”.

 

Rodolfo é um entre as inúmeras pessoas que procuram fazer seus trabalhos nas ruas serem mais valorizados e incentivados. Assim como ele, Anne Gladys Santana Sousa e seu filho, Pedro Santana dos Santos também trabalham na rua no dia a dia, como vendedores ambulantes.

 

O trabalho nas ruas

Em tempos de desemprego e constantes abusos trabalhistas por parte dos empregadores, o trabalho informal se torna uma possibilidade de renda para muitas pessoas. Esse fenômeno não se restringe apenas ao mundo corporativo, afinal, também engloba, por exemplo, vendedores ambulantes, que, mesmo com todos os riscos envolvidos, seguem na luta por seu sustento, enquanto prestam um serviço de enorme importância para suas comunidades. 

 

A falta de segurança nas ruas, clientes que não valorizam seus ofícios e rotinas extremamente árduas representam apenas algumas das dificuldades diárias com as quais os comerciantes precisam lidar. Mãe e filho, Anne Gladys Santana Sousa e Pedro Santana dos Santos trabalham há cinco anos como vendedores ambulantes na região do Itapoã, atualmente em frente a parada de ônibus do supermercado atacadista Bevia, oferecendo opções acessíveis de café da manhã para a população local, e, através de seus relatos, é possível obter uma perspectiva nova acerca da situação desse grupo.

 

O negócio de Anne Gladys surgiu por necessidade de um complemento à sua renda. Em 2018, trabalhava em um local que não lhe pagava por suas férias, o que encurtava drasticamente seu orçamento, então, em dezembro do mesmo ano, pôs em prática seu plano. “Comecei a ir (vender) só em alguns dias, depois passei a ir apenas aos sábados, daí decidi ir todos os dias da semana. Foi um complemento que se tornou um trabalho que nós temos para trazer um pouco de dinheiro para casa e pagar as contas”, relembra a vendedora de 42 anos. “No começo, foi um pouco difícil, como tudo sempre é, mas depois fomos criando uma clientela”. A escolha do cardápio partiu da percepção de que existiam poucos comerciantes que ofertavam café da manhã na região. O menu oferecido pela vendedora conta hoje com opções de tapiocas recheadas, bolos, café (com ou sem leite) e pães de queijo.

 

A pandemia de COVID-19 representou um imenso desafio para o planeta inteiro, incluindo Anne. O impacto do fenômeno afetou os preços de seus produtos e o volume de clientes, além da localização de seu negócio. “Lá era um ponto muito bom, na parada (de ônibus) do Murão, só que com o passar do tempo e a pandemia, tivemos que ir para uma parada mais acima, então perdemos alguns clientes que sempre passavam por aquele caminho, aí tivemos que reconquistar uma nova clientela”.

 

Comerciantes precisam sempre lidar com atendimento ao público, uma vez que essas interações podem ser a base de seu sustento. “Sempre temos que conquistar as pessoas, ninguém nos conhecia ou sabia da nossa existência, mas com o passar do tempo, as pessoas foram nos conhecendo e gostando do nosso trabalho [...]; o Brasil é um país que não valoriza o trabalho de ninguém. Você pode dar o seu melhor e ainda vai ter gente para reclamar do valor, do produto, de tudo” comparou a comerciante. Para Pedro, seu filho de 21 anos, lidar com diferentes pessoas todos os dias têm sido uma eficaz ferramenta na luta contra a timidez, o que melhorou sua vida social. Ao concordar com a afirmação da mãe, falou sobre como uma pequena parcela dos consumidores desvaloriza o serviço que prestam: “brasileiro desvaloriza demais o serviço das outras pessoas; a gente vê isso em várias áreas da sociedade, desde o ambulante até um prestador de serviço que vai instalar um ar-condicionado, por exemplo”.

 

Trabalhar em um ambiente como as ruas pode expor os comerciantes a vários riscos durante suas rotinas, na cidade do Itapoã não é diferente. “O Itapoã é uma cidade bem insegura, bastante violenta[...], mas de uns tempos para cá está um pouco melhor, até porque já conhecemos a galera da rua, então não mexem com a gente”. A comerciante remarca que a falta de uma delegacia na cidade e a pouca presença da polícia na região dificultam o combate às ocorrências corriqueiras. “Em questão de segurança, nunca fomos afetados diretamente, mas de vez em quando ficamos sabendo de casos de pessoas que foram roubadas perto da gente, já vimos de longe pessoas sendo assaltadas, moradores de rua sendo agredidos [...] É um problema muito complexo, que não vai ser resolvido do dia para noite, mas graças a Deus a gente nunca foi afetado diretamente por esse problema", ressalta Pedro.

Créditos da foto: Arquivo pessoal dos entrevistados

Mesmo com todas as dificuldades envolvidas, Anne Gladys mantém um tom esperançoso acerca de possíveis expansões em seu negócio: “a gente pensa positivo, mas também temos que ver nossa realidade como um todo; trabalhar na rua não é um trabalho fácil, é muito doloroso, porque você tem que estar ali embaixo de sol, chuva, no frio ou calor de segunda a sábado; mas penso sim em expandir e colocar mais produtos para serem vendidos”.


 

Adrielle, Caburé e Anne contaram exemplos de situações que presenciaram em suas atuações nas ruas.

O relato emocionante de Adrielle ocorreu enquanto ela estava grávida:

 

 

 

 

Caburé narra o dia em que estava fazendo um mural na Ceilândia, de um homem com dreads em um skate e carregando livros em cima da cabeça, quando um homem passou e parou para falar com ele; compartilhou que nunca viveu na vida e sugeriu ele colocasse a frase: “O sol é para todos, mas a sombra não” em um dos livros, o que depois foi adicionado na lombada de um dos livros da obra. O segundo evento relatado por Rodolfo, ocorreu enquanto estava grafitando em uma favela em Santa Luzia, na Estrutural, quando começou a chover; a mudança do clima fez com que ele parasse seu progresso da arte, foi nesse exato momento que viu um casal que começou a dançar no meio da rua, embaixo de chuva. Ele se sentiu marcado pela cena pois apesar de todas as condições precárias, o casal estava dançando na chuva, sendo feliz.

 

O fato de estar e interagir com a população presente nas ruas durante o cotidiano resultou em uma ocasião intrigante para Anne Gladys e seu filho:


 

GALERIA DE FOTOS
 



 

27/11/2023

 

Reportagem por Ana Clara Pereira de Lima Oliveira, Felipe Domingues Ferreira Braga Bezerra, Geisa Santana dos Santos, Júlia Yasmin da Silva Araújo, Paloma Santos Pereira e Pedro Eduardo Américo Raposo.

Créditos_Ana_Clara_Pereira_de_Lima_Oliveira[1].jpg
Áudio Adrielle
00:00 / 00:25
FOTO IMG_3891.jpg
Arquivo_pessoal_dos_entrevistados_(PEDRO)[1].jpg
Relato Anne
00:00 / 00:34
Tirada pela Paloma (2)_edited_edited.jpg

Conexões Urbanas 

bottom of page